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30/09/16
Modelos de relacionamento inovadores em saúde

O setor de saúde apresenta modelos de relacionamento diversificados e muitas vezes conflituosos entre os diferentes participantes. Em relação ao Sistema Único de Saúde (SUS), temos conceitualmente uma abrangência universal e que na realidade cuida de modo deficitário de apenas uma parcela da população e que repassa à saúde suplementar os custos decorrentes de atendimento de usuários que possuem planos de saúde. A saúde suplementar atinge em torno de 25% da população sendo que o valor envolvido é muito maior quando comparado ao do SUS, que atende aos outros 75% da população. A tríade formada pelo prestador de serviços de saúde, paciente e fonte pagadora é complicada, uma vez que um terceiro arca com os custos dos serviços prestados. A relação médico-paciente a princípio pautada pelo estabelecimento de grau máximo de confiança foi deteriorada a ponto de uma consulta durar menos de cinco minutos e o usuário do plano de saúde se colocar como um superconsumidor ávido por exigir que o médico solicite exames complementares de alto custo, gerando custos assistenciais desnecessários. Paradoxalmente ao avanço da tecnologia médica, não observamos diminuição significativa no headcount assistencial. Por sua vez, os órgãos regulatórios em diversas situações criam regras a serem cumpridas pelos prestadores e pelas fontes pagadoras e que antes de serem pensadas em trazer maior eficiência aos processos trazem entraves à cadeia de saúde. Os custos assistenciais decorrentes de um cenário extremamente dinâmico tornaram-se insustentáveis e com isso temos assistido ao surgimento de novos modelos de relacionamento em saúde. 

Diante de um SUS deficitário e do alto custo de um  plano de saúde individual (não corporativo), a parcela da população que não possui emprego formal vê surgir modelos alternativos de prestação de serviços de saúde que deflagram esperança por um atendimento de qualidade, acessível e adaptável a suas necessidades do momento. Como exemplo, podemos citar as clínicas de consulta compostas por médicos com boa formação técnica que se propõem a dedicar parte de seu tempo a atender a preços acessíveis comunidades de baixo poder aquisitivo. Esta iniciativa tem se mostrado um sucesso aos empreendedores e ao paciente, que no curto prazo, tem seu problema resolvido. Este modelo de clínica tem se proliferado e, graças a ele, uma parcela importante da população tem tido acesso a um atendimento digno. Também temos assistido, em formato de start ups, modelos inovadores de financiamento da saúde através de cartões de crédito voltados exclusivamente para esta finalidade, com envolvimento de instituições financeiras relevantes no Brasil e destinados a ser usado em redes credenciadas específicas com agendamento online e com outras opções como forma de pagamento.

Do ponto de vista da relação médico-paciente, surgiram incontáveis aplicativos, ferramentas, blogs que possuem vários e diferentes objetivos. Apenas para citar alguns: aumentar a velocidade da troca de informação demandada pelo superconsumidor citado acima; alimentar base de dados das grandes empresas com informações geradas a partir de inocentes equipamentos que usamos no nosso dia a dia na prática de esportes ou no registro de atividades da vida diária; transmitir ao médico informação relevante em tempo real sobre o estado clínico e resultados de exames de pacientes entre tantas outras. A questão primordial é: com qual grau de criticidade estamos avaliando estes criativos instrumentos que interferem  na relação médico-paciente? Uma resposta de um médico por WhatsApp  o protegerá nos casos de um desfecho infeliz de um caso? Será que queremos fazer parte de uma base de dados que não gere informação inteligente e que não se reverta em benefícios para a saúde populacional? Qual o uso que fazem das informações geradas a partir de wearables acoplados ao nosso corpo? Como regulamentar e fiscalizar toda esta onda? Estes questionamentos não traduzem uma postura retrógrada, mas sim uma preocupação genuína com o impacto da entrada indiscriminada destes instrumentos no mercado da saúde.

Indubitavelmente grande parte das inovações traz eficiência à cadeia da saúde, contribuindo de forma consistente para otimização de processos, acessibilidade, capilaridade e transmissão de informação em tempo real. Como exemplos, podemos citar as centrais de emissão de laudos a distância e a telemedicina formal, criada dentro das normas dos conselhos.

Levando-se em conta que a inovação pode contribuir para o aprimoramento das instituições e que a insustentabilidade dos custos assistenciais está gerando uma mudança na relação entre os players envolvidos, um objetivo comum deveria nortear os esforços dos líderes, buscando construir relações inovadoras, colaborativas, engajadoras e participativas. Neste modelo os principais beneficiados serão as instituições, os pacientes e, de um modo mais abrangente, a cadeia como um todo. O paciente deve ser colocado no centro de todo o sistema a despeito dos demais fatores relevantes e como tal deve ser tratado também como um participante ativo do sistema e cada vez mais ser ensinado a ser o gestor de sua saúde. Toda a inovação trazida pela tecnologia móvel, pelos aplicativos e pelas demais ferramentas, incluindo as mídias sociais, deve estar pronta e madura o suficiente para permitir que uma nova era na área da saúde possa ser implementada e assim contribuir de modo perene para a sustentabilidade do setor.

Artigo publicado na revista Diagnóstico nº 32.

Adriana Gasparian
Adriana Gasparian
Adriana Gasparian é mestre em pediatria e MBA em economia e Gestão da Saúde, diretora executiva da EY para a área de saúde e atuou na Amil e Porto Seguro na área de contas médicas.

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