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09/11/15
Saúde: uma indústria em constante movimento
A revista “The Economist”, em sua edição de 12 de novembro de 2009, estampou em sua capa: “Brazil takes off”. Tal notícia, altamente comentada na ocasião pela mídia mundial, significou orgulho para muitos, desconfiança para outros e  inquietação para os mais céticos: como manter-nos neste patamar de forma sustentável em longo prazo? A saúde estava incluída neste panorama e, como participante deste cenário, tornou-se foco de atenção com as demais indústrias em um país altamente atrativo para investidores externos.  

O crescimento do PIB nacional observado naquela época gerou impactos positivos para os serviços privados de saúde, em que o número de vidas de assistência médica e odontológica cresceu, uma vez que o poder de compra da população aumentou e a saúde suplementar tornou-se um sonho possível de se tornar realidade para uma parcela maior da população, retratando a ascensão da classe D para a classe C. Este novo consumidor apresentou-se como um “superconsumidor”, ávido por desfrutar de um serviço até então inacessível. O envelhecimento da população brasileira contribuiu para o aumento da demanda por serviços de saúde, assim como a ocorrência de doenças crônicas.  

Paralelamente, observou-se grande avanço tecnológico no setor, com disponibilização de equipamentos e tratamentos inovadores e tendência de ambulatorização dos serviços. 

A fim de atender a essa crescente demanda, os prestadores de serviços de saúde entraram em processos de expansão, seja por aumento de leitos ou por diversificação de portfolio. Por sua vez, os provedores de saúde redimensionaram sua rede de atendimento e incrementaram mecanismos de controle de sinistralidade, e a agência regulatória teve de atuar de modo mais efetivo. 

Essa dinâmica foi acompanhada por uma inflação médica crescente, que se tornou, em verdade, um constante desafio a ser vencido por todos os stakeholders que, apesar de esforços constantes em busca de amadurecimento de gestão, ainda apresentam-se aquém do necessário para manter a saúde econômica perene de seus serviços. Como consequência, observamos a consolidação de grandes players tanto em prestadores como em provedores de serviços à saúde, com tendência forte para verticalização visando a um controle maior de custos. 

A saúde pública participou de todas essas movimentações muito mais como uma coadjuvante do que como uma competidora de peso, incorporando modelos acanhados de parceria público-privada e organização social de saúde, as quais a princípio, por suas regras, afastaram investidores internos de peso. Apesar de um sistema de saúde público universal, a população carece de atendimentos básicos de saúde, principalmente em localidades distantes das capitais, onde a classe médica não dispõe a atuar, pois, além da baixa remuneração, não encontra condições mínimas para o exercício da medicina. Nesse contexto, a Lei 13.097, sancionada pela presidente Dilma Rousseff e publicada em 20 de janeiro de 2015 no Diário Oficial da União, altera a Lei 8.080/1990 para permitir “participação direta ou indireta, inclusive controle, de empresas ou de capital estrangeiro na assistência à saúde”. A autorização vale para hospitais especializados e gerais, inclusive filantrópicos de alta complexidade. 

O setor de saúde do Brasil é atraente para investidores levando em conta os valores envolvidos. Segundo a Confederação Nacional de Saúde (CNS), o setor de saúde tem participação de 10,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Segundo a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), a receita obtida pelo setor suplementar gira em torno de R$ 122 bilhões. Com um gasto per capita cerca de oito vezes menor do que nos Estados Unidos e uma taxa de cobertura da população de 26% pela saúde suplementar, há espaço para crescimento tanto na saúde pública como privada, levando-se em conta que os dois sistemas juntos representam um mercado de R$ 290 bilhões.  

A entrada de capital estrangeiro pode contribuir para solucionar os principais desafios enfrentados pelos hospitais na atualidade:  

- Ganho em escala: a maioria dos hospitais no Brasil tem um tamanho pequeno quando comparados aos hospitais dos Estados Unidos; 

- Redução de custos: em média, um hospital no Brasil tem duas vezes mais funcionários por leito quando comparado com hospitais norte-americanos; 

- Estrutura de capital: hospitais no Brasil têm estrutura de capital pouco eficiente, com ganhos limitados para seus acionistas. 

Nesse sentido, espera-se que o investimento externo colabore para o aprimoramento dos modelos de gestão que se mostram ineficientes inclusive nos hospitais verticalizados por operadoras, possibilitando incremento na margem e nos indicadores financeiros de um modo geral. 

Por outro lado, algumas entidades de classe e alguns líderes de opinião enxergam com reserva a abertura para o capital estrangeiro da saúde. Como opinião geral, espera-se que o capital estrangeiro contribua para a melhoria da saúde da população de um modo geral, e que siga requisitos para participação como, por exemplo, não ter caráter especulativo e envolver instituições com perfil de investidor no setor de saúde voltado para amadurecimento da estrutura de governança e melhoria contínua de processos, a fim de que as mudanças sejam sustentáveis em longo prazo.

*Artigo publicado na edição 30 da revista Diagnóstico.
Adriana Gasparian
Adriana Gasparian
Adriana Gasparian é mestre em pediatria e MBA em economia e Gestão da Saúde, diretora executiva da EY para a área de saúde e atuou na Amil e Porto Seguro na área de contas médicas.

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