home especiais Resenha: O futuro da medicina e a evolução tecnológica
Voltar
08/11/16
Resenha: O futuro da medicina e a evolução tecnológica
Livro The Patient Will See You Now, de Eric Topol, aborda o poder nas mãos do paciente
Filipe Sousa
“Há muito tempo numa galáxia muito muito distante”. Para aguçar a curiosidade em torno do livro de Eric Topol, podemos adaptar esta frase tão usada recentemente para “em breve numa galáxia muito muito próxima”. A realidade que se segue parece ficção e mistura detalhes que achávamos irreais com pormenores que vamos observando usualmente aplicados nos dias que correm. (Foto: Divulgação)

O mais recente livro do cardiologista Eric Topol, ‘The Patient Will See You Now: The Future of Medicine is in Your Hands” (“O Paciente vai vê-lo agora: O Futuro da Medicina Está em Suas Mãos”, em tradução livre), possui um certo sabor ao “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, trazendo toda uma visão futurista do passado, que nos possibilita assistir à concretização dos sonhos de décadas anteriores.

Dr. Topol, além de cardiologista, dirige o Scripps Translational Science Institute em La Jolla, Califórnia, é editor-chefe do site Medscape, professor de genômica e fundador do primeiro banco genético cardiovascular do mundo na Cleveland Clinic. Seu título no Scripps Institute é, no mínimo, curioso: “Professor de Medicina Inovadora”. Topol anuncia o fim dos dias da medicina a que estamos acostumados e o surgimento de cuidados rigorosos, digitalmente aperfeiçoados, precisos e rentáveis.

A teoria central do livro anuncia a morte de um sistema assente no médico e dependente do médico, de suas decisões, de seus palpites e até do seu conhecimento. Não haverá mais a exclusividade dos médicos controlando dados médicos, tratamentos ou lucros. A ciência e a era digital estão trazendo a verdadeira democracia aos cuidados de saúde. A humanidade está sendo empoderada, o paciente está sendo elevado no universo da medicina. O tremendo potencial dos smart- phones leva o autor a assinalar um “Momento Gutenberg” da medicina, algo com um impacto tão avassalador e revolucionário na divulgação de informação quanto a invenção da imprensa.

A tecnologia que está ao nosso alcance permite pular de um sistema que, em muitos casos, está preso no século XVIII e avançar para um País das Maravilhas com estetoscópios de ultrassom, nanochips ou painéis de sangue realizados em gotas individuais.

Topol prevê o fim das visitas a um consultório médico. Adeus esperas humilhantes e intermináveis! Um smartphone equipado com os aplicativos corretos vai facilmente analisar, explicar e transmitir todos os dados fisiológicos relevantes para o médico, geralmente sem a necessidade de presença física do paciente. Ficção? Não. Topol usa a sua experiência pessoal-profissional para fundamentar essa previsão. Ele relata que, durante anos, não usou estetoscópio, optando por áudio mais preciso e ferramentas eletrônicas de vídeo.

‘Sayonara’ hospitais anacrônicos. “O quarto de hospital do futuro será o quarto”, diz Topol. A maioria dos CEOs hospitalares acredita que estalou uma bolha hospitalar, com excesso de camas e acentuada sobrecapacidade. O resultado desta tendência será que o quarto do hospital do futuro será o quarto. Hospitais como existem hoje são configurados para falhar e seu futuro fiscal é mais do que desolador.

A casa da pessoa doente será equipada para a ocasião com todos os sensores portáteis apropriados, e assim estarão criados serviços hospitalares “realizados no conforto da nossa própria casa. Veremos os nossos próprios dados em nossos próprios dispositivos. Estaremos no comando.”

O diagnóstico médico será simplificado. Acabará o processo triturador-de-tempo-e-paciência de médicos explicando os seus sintomas com testes e exames intermináveis. Serão substituídos por páginas da web completas de genes sequenciados e todas as formas de cálculos de risco biológico e comportamental. Assim iremos obter um diagnóstico provável instantaneamente. Topol vai mais longe e escreve que o paciente pode perfeitamente fazer esse diagnóstico e apresentá-lo ao médico para avaliação, e todas as informações estarão disponíveis gratuitamente.

Palpites e adivinhação deixarão de fazer parte da prescrição de medicamentos. Padrões genéticos permitirão distinguir facilmente as pessoas susceptíveis de se beneficiar de uma droga das pessoas susceptíveis de sofrer consequências danosas. A seleção dos medicamentos vai se tornar segura a ponto de, em algumas situações, os pacientes prescreverem para si próprios. A inspiração ‘huxleyiana’ de Eric Topol fervilha a ponto de acreditar que pequenos sensores eletrônicos expedidos na corrente sanguínea ou nos intestinos dos pacientes irão calmamente rastrear dados de saúde em tempo real. São “estetoscópios moleculares” altamente sofisticados que, no seu expoente máximo, irão identificar de forma eficiente pequenas moléculas como mediadores inflamatórios e DNA aberrante que anunciam acontecimentos ruins. ‘Bye bye’, catástrofes como ataques cardíacos, diabetes e até mesmo câncer. Todos eles serão identificados, atacados e superados  bem antes de acontecerem.

O livro é uma boa notícia para os pacientes, embora possua algumas áreas mais sombrias para um leigo, com análises estatísticas mais complexas e uso pesado de terminologia médica, em particular em genômica. O que é realmente impressionante é o volume de conhecimento que Topol reuniu neste livro. Assim como Gutenberg e a sua criação promoveram a liberalização do acesso à informação, acabando com o controle de uma classe de elite, a nova tecnologia está aí para democratizar a medicina. A tecnologia vai colocar o laboratório e a UTI em nossos bolsos. Apesar destes benefícios, o caminho a percorrer não será simples. 

O setor médico vai tentar resistir a essas mudanças e a medicina digital vai levantar questões sérias, como as relativas a privacidade. Mas esse caminho vai levar a um destino com resultados melhores, mais baratos e mais humanos para os cuidados de saúde.

É claro que ler que dispositivos digitais “vão substituir os médicos em muitas tarefas” não é minimamente agradável para um médico. Um médico sul-africano, lendo as primeiras páginas, disse mesmo que a sua intenção era “lê-lo e rasgá-lo em pedaços”. Não rasgou. É que Topol não afirma que os médicos têm más intenções e que os pacientes devem assumir. Ao longo de sua exposição, ele reconhece o valor do médico e explica como a tecnologia pode mudar a prática da medicina para melhor. Numa atualidade em que os médicos, muitas vezes, não têm mãos a medir, o digital pode ser um precioso aliado.
 
Uma leitura deste livro exige que se pense em duas realidades. A tal galáxia muito, muito distante e a galáxia muito, muito próxima. A próxima é aquela em que vemos acontecer muito do que Topol vê acontecer e acredita que se tornará procedimento usual. A galáxia distante, aquela que, presumivelmente, é fruto de um otimismo e futurismo bem semelhante àquele que, décadas atrás, consideraríamos fantasioso. Só que, quanto do que era fantasioso há anos, é hoje comum?
 
Topol apresenta contra-argumentos às suas próprias crenças e admite que é necessário mais desenvolvimento. Isso torna o livro realista. Ele coloca no tubo de ensaio a promessa de tecnologias emergentes e abordagens, junta uma avaliação sóbria de que o atual sistema de saúde não está atingindo o seu pleno potencial e mistura ambas. O resultado é um livro com ideias suportadas por dados sólidos.

Várias questões surgem após a leitura. Será que todos os pacientes realmente querem, ou mesmo, será que devem querer ser seus próprios médicos? Quão engajada deve ser uma pessoa? Será que queremos dedicar nosso tempo a controlar nossa saúde? Será que queremos deixar de ter alguém cuidando de nossa saúde?

“The Patient Will See You Now: The Future of Medicine is in Your Hands”
Basic Books | 384 páginas | US$ 15,61 (Kindle); US$ 17,99 (impresso) ou US$ 25,95 (audiolivro)

*Resenha publicada na revista Diagnóstico nº 32.

PUBLICIDADE

Newsletter

Cadastre-se e receba as novidades do Diagnosticoweb em seu e-mail

agenda

facebook

© Copyright 2012, Diagnósticoweb . Todos os direitos reservados.