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29/08/18
Edmond Barras: o papel do médico nos custos da saúde
Faltam propostas para cortar desperdícios ou combater fraudes
Edmond Barras

Em uma época de alta significativa dos custos com a saúde, no SUS ou na saúde privada, muitas propostas têm surgido para sanar o desequilíbrio entre receita e despesa. Infelizmente, quase todas se baseiam na elevação da receita mediante novos impostos, aumento das mensalidades dos planos de saúde, coparticipação, franquia, planos populares, etc. Quase nada é proposto para cortar desperdícios ou combater fraudes. Dos R$ 500 bilhões gastos ao ano no País com cuidados à saúde nos sistemas público e privado, R$ 100 bilhões (20%) são perdidos em desperdícios e fraudes. 

Cabe a nós, médicos, corrigir tais distorções. Será que não somos parte ativa nas condutas que levam a desperdícios e ao aumento dos custos? Nossa formação nos leva a negligenciar o fato de haver condutas que podem ser eliminadas sem afetar os cuidados com os pacientes. 
Os médicos têm a responsabilidade primordial de fornecer o melhor tratamento. Isso inclui usar todos os recursos para os melhores tratamentos. Ante a enorme escalada dos custos com a saúde, ambas as responsabilidades podem ser obedecidas cortando desperdícios.
Ao pedir exames, prescrever medicamentos, desenvolver tratamentos e executar procedimentos, somos os únicos que podemos proporcionar resultados imediatos. Na atual situação, enquanto empresas lutam para sobreviver e empregados perdem os planos de saúde, junto com os empregos, os custos da saúde não podem subir. Estudos feitos nos EUA, logo após a crise de 2008, mostraram que no sistema de saúde local havia desperdício de 40 a 50%. As pesquisas revelaram que, se 10% das intervenções médicas fossem eliminadas, seriam economizados US$ 100 bilhões por ano.

Em 2011, em artigo no “British Medical Journal”, três médicos americanos publicavam matéria intitulada “Controlando os custos da saúde; o que os médicos podem fazer já”, sugerindo uma solução para controlar custos sem reduzir cuidados efetivos nem pagamentos a médicos e hospitais. Três estratégias integram a proposta: diminuir excessos, prevenir complicações e cortar desperdícios. 

Excesso é o emprego de condutas com efeitos duvidosos, nos quais os danos podem superar os benefícios. Não é simples identificar excessos, mas devem-se definir limites para tratamentos sem evidências concretas de eficiência. Por exemplo, usar antibióticos em resfriados.
Nos EUA, calcula-se que os cuidados desnecessários causem 30 mil óbitos por ano. Ademais, seus custos são enormes – estima-se que de um quinto a um terço dos gastos com saúde. Só em sete procedimentos médicos, são desperdiçados de US$ 33 bilhões a US$ 62 bilhões por ano.

Há várias explicações para os excessos: o sistema de pagamento fee for service; exigências dos pacientes impulsionados por publicidade; entusiasmo não fundamentado por novas tecnologias. Nós, médicos, temos obrigação de mudar isso. Devemos conhecer melhor os pacientes e compartilhar com eles decisões sobre tratamentos. Estabelecer padrões inequívocos de tratamento será suficiente para proteger e apoiar os médicos na orientação dos procedimentos.

Complicações evitáveis são o segundo item no qual os médicos têm responsabilidade. Elas acontecem quando o procedimento não é feito com eficiência. Isso custa de US$ 29 bilhões a US$ 40 bilhões por ano. Tratamentos de processos infecciosos têm efeitos adversos consideráveis. Estima-se que 1,7 milhão de infecções levam a 99 mil óbitos anualmente. O custo é estimado em US$ 28 bilhões a US$ 33 bilhões por ano.
Procedimentos ineficientes são a terceira categoria de desperdício pela qual os médicos costumam ser responsáveis. Desperdícios nos hospitais podem chegar a 13,6% dos custos. Abordagens modernas para adoção de sistemas para melhorar a confiabilidade podem reduzir muito os custos hospitalares. É preciso simplificar procedimentos redundantes.

O desperdício causado por complicações evitáveis e procedimentos ineficientes só poderá ser eliminado com interação ativa entre médicos, enfermagem, administração e gestores. Precisamos admitir que os médicos são os profissionais que devem liderar o processo de erradicação dos desperdícios, criando uma cultura idônea e funcional em relação à equipe multidisciplinar, sempre tendo em conta que o objetivo é o paciente, a segurança e a eficiência. Ninguém além do médico pode estabelecer essas cláusulas pétreas.

*Edmond Barras é médico titular e chefe do Serviço de Clínica e Cirurgia da Coluna Vertebral do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo



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